Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saúde Mental: O Que a Ciência Diz Sobre os Efeitos no Cérebro
Uma revisão de 82 estudos publicada em 2026 na Clinical Therapeutics investigou os efeitos neuropsiquiátricos dos agonistas do GLP-1. Os achados sobre depressão, suicídio, compulsão alimentar e vícios são mais tranquilizadores — e mais nuançados — do que as manchetes sugerem.
Se você usa semaglutida, liraglutida, tirzepatida ou outro medicamento da classe dos agonistas do GLP-1 para emagrecer ou tratar diabetes, é natural que tenha se perguntado: esses remédios afetam a saúde mental?
Nos últimos anos, manchetes alarmantes associaram o Ozempic e o Mounjaro a risco de depressão e até suicídio. Ao mesmo tempo, surgiram relatos animadores sobre possíveis benefícios para compulsão alimentar, vícios e até doenças neurodegenerativas. Afinal, o que é verdade?
Uma grande revisão científica publicada em 2026 na revista *Clinical Therapeutics* reuniu 82 estudos — o levantamento mais abrangente até hoje — para responder exatamente a essa pergunta. Neste post, traduzo os principais achados para uma linguagem clara, sem perder o rigor.
O que são os agonistas do GLP-1?
Os agonistas do receptor de GLP-1 (ou GLP-1 RAs) são medicamentos que imitam um hormônio intestinal chamado GLP-1. Originalmente desenvolvidos para controlar a glicemia no diabetes tipo 2, eles ganharam enorme popularidade mundial para o tratamento da obesidade por promoverem perda de peso significativa.
Os nomes comerciais mais conhecidos no Brasil incluem Ozempic® e Wegovy® (semaglutida), Saxenda® e Victoza® (liraglutida) e Mounjaro® (tirzepatida). Este último, o Mounjaro, é o mais recente a chegar ao mercado brasileiro e age em dois receptores ao mesmo tempo (GLP-1 e GIP), sendo considerado o mais potente para emagrecer entre os disponíveis.
Como o GLP-1 atua em várias regiões do cérebro — inclusive áreas relacionadas ao humor, à recompensa e à memória — faz sentido investigar se esses medicamentos têm efeitos além do metabolismo.
Ozempic causa depressão ou ansiedade?
Resposta curta: não há evidência de que cause.
A revisão analisou nove estudos sobre o tema, incluindo ensaios clínicos controlados e grandes estudos populacionais. O resultado foi consistente: os agonistas do GLP-1 não aumentaram nem diminuíram o risco de depressão ou ansiedade quando comparados a placebo ou a outros medicamentos para diabetes.
Isso vale tanto para a semaglutida (Ozempic, Wegovy) quanto para a tirzepatida (Mounjaro) e para a classe como um todo.
Se você usa um desses medicamentos e está sentindo sintomas de humor, é importante investigar — mas o mais provável é que a causa esteja em outro lugar, e não no remédio em si.
E o risco de suicídio? Devo me preocupar?
Essa foi uma das questões que mais gerou atenção pública. Em 2023, agências reguladoras da Europa e dos Estados Unidos abriram investigações sobre um possível aumento de ideação suicida com semaglutida e, posteriormente, com tirzepatida (Mounjaro) e liraglutida.
O que a revisão encontrou: quando os pesquisadores analisaram estudos bem desenhados — ensaios clínicos randomizados e estudos com comparadores ativos (por exemplo, GLP-1 RA versus outro medicamento para diabetes) — não houve aumento de risco de suicidalidade.
Um detalhe importante: em estudos observacionais que compararam usuários de GLP-1 RA com pessoas que não usavam nenhum medicamento, apareceu uma aparente "proteção" contra suicidalidade. No entanto, esse efeito desaparecia completamente quando a comparação era feita com outros medicamentos ativos, como os inibidores de SGLT2. Isso sugere que a diferença se devia a características dos pacientes (quem usa esses medicamentos tende a ter mais acompanhamento médico), e não ao medicamento em si.
Na prática: os dados são tranquilizadores. Não há motivo para descontinuar o tratamento por medo de suicídio. Porém, como em qualquer acompanhamento psiquiátrico, é sempre prudente monitorar sintomas emocionais, especialmente em pessoas com histórico prévio.
Compulsão alimentar: aqui sim há boas notícias
O achado mais robusto de toda a revisão para a prática psiquiátrica é sobre o transtorno de compulsão alimentar (o chamado *binge eating*).
Dois ensaios clínicos mostraram que a liraglutida (Saxenda®, na dose de 3 mg/dia) reduziu significativamente o número de episódios de compulsão alimentar quando comparada a placebo. Essa redução se manteve por até um ano em um dos estudos.
Dados preliminares com semaglutida e dulaglutida apontam na mesma direção, embora os estudos sejam menores.
Por que isso importa? O transtorno de compulsão alimentar é muito mais comum do que as pessoas imaginam, e o arsenal terapêutico é limitado. No Brasil, a lisdexamfetamina (Venvanse®) é a principal opção farmacológica. Os GLP-1 RAs podem se tornar uma alternativa valiosa, especialmente para pacientes que também apresentam obesidade — um cenário clínico muito frequente.
Vícios e uso de substâncias: sinais iniciais promissores
Os agonistas do GLP-1 atuam em circuitos cerebrais de recompensa — as mesmas vias envolvidas nos comportamentos de dependência. Por isso, pesquisadores investigaram se esses medicamentos poderiam ajudar em transtornos por uso de substâncias.
Os achados mais interessantes foram:
Álcool: um pequeno estudo com semaglutida mostrou redução na quantidade de bebida por dia e no desejo de beber. Outro estudo com exenatida mostrou benefício em pacientes com obesidade. Porém, os estudos são muito pequenos para tirar conclusões definitivas.
Cannabis: estudos observacionais encontraram uma associação entre uso de semaglutida e menor risco de desenvolver transtorno por uso de cannabis. Porém, não há ensaios clínicos controlados para confirmar.
Cocaína e nicotina: sem efeito demonstrado nos estudos disponíveis.
Em resumo: há sinais interessantes que justificam pesquisa futura, mas ainda não há evidência suficiente para recomendar GLP-1 RAs como tratamento para dependências.
E quanto à proteção do cérebro? Demência e Parkinson
Outro tema bastante discutido é o potencial neuroprotetor dos GLP-1 RAs.
Doença de Parkinson: estudos populacionais sugerem que pessoas que usam GLP-1 RAs podem ter um risco menor de desenvolver Parkinson. Entretanto, para quem já tem a doença, os medicamentos não mostraram melhora consistente nos sintomas motores quando os dados foram analisados em conjunto.
A interpretação dos pesquisadores é que esses medicamentos podem ajudar a *prevenir* a perda de neurônios, mas provavelmente não *recuperam* neurônios já danificados — uma distinção importante.
Demência e Alzheimer: os resultados dependem muito de com quem se compara. Quando comparados a pessoas sem tratamento, os GLP-1 RAs mostraram menor risco de Alzheimer. Porém, quando comparados a outra classe de medicamentos modernos para diabetes (os inibidores de SGLT2, como a empagliflozina), não houve diferença.
Na prática: não há base para prescrever Ozempic, Wegovy ou Mounjaro especificamente para prevenir demência ou Parkinson. Mas para pacientes que já usam esses medicamentos por indicação metabólica, o perfil de saúde mental é favorável.
O que levar para casa
Se você usa ou está pensando em usar Ozempic, Wegovy, Saxenda, Mounjaro ou outro GLP-1 RA, as principais mensagens desta revisão são:
1. Não há evidência de que esses medicamentos causem depressão, ansiedade ou aumento de risco de suicídio em estudos bem desenhados.
2. Há benefício comprovado para compulsão alimentar com liraglutida, especialmente em pacientes com obesidade.
3. Os sinais de proteção cerebral (Parkinson, Alzheimer) são preliminares e não justificam o uso com essa finalidade.
4. Os efeitos sobre vícios (álcool, cannabis) são promissores, mas precisam de mais pesquisa.
5. Comunicação entre seus médicos é fundamental. Se você faz tratamento psiquiátrico e está usando ou pretende usar um GLP-1 RA, informe seu psiquiatra. E vice-versa.
Quando procurar ajuda
Se você apresenta compulsão alimentar, dificuldade com o peso, ou se preocupa com os efeitos de medicamentos como Ozempic, Mounjaro ou Wegovy na sua saúde mental e bem-estar emocional, uma avaliação psiquiátrica pode ajudar a integrar o cuidado.
Agendar uma consulta permite uma análise individualizada do seu caso, considerando todos os medicamentos em uso, seu histórico e seus objetivos de tratamento.

Dr. Otávio de Lacquila Yano
Médico Psiquiatra
Médico psiquiatra especializado em saúde mental, com formação pela USP e experiência em depressão resistente ao tratamento, autolesão e prevenção ao suicídio. Dedica-se a desmistificar a psiquiatria e promover o bem-estar mental através da educação e cuidado personalizado.
Especialidades
⚠️ ⚠️ IMPORTANTE: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Não substitui a consulta médica individualizada.
⚠️ Não inicie, altere ou interrompa nenhum medicamento sem orientação do seu médico.
⚠️ Se você apresenta sintomas emocionais em uso de qualquer medicamento, informe seu médico ou psiquiatra.
Fontes e Referências
Choudhury et al. (2026). Neuropsychiatric Effects of GLP-1 Receptor Agonists: A Systematic Review of 82 Studies. Clinical Therapeutics. DOI: 10.1016/j.clinthera.2026.02.010
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