Ozempic Pode Ajudar na Depressão e Ansiedade? Estudo do Lancet Psychiatry Traz Novas Evidências
Um estudo publicado no The Lancet Psychiatry com quase 100 mil pessoas na Suécia mostrou que a semaglutida (Ozempic) reduziu em até 44% o risco de piora da depressão em pacientes que já tinham diagnóstico de transtorno mental. Entenda o que os dados significam e o que ainda não sabemos.
Se você convive com depressão ou ansiedade e também usa medicamentos para diabetes ou obesidade, um estudo recente publicado na revista *The Lancet Psychiatry* — uma das mais importantes do mundo em psiquiatria — pode ser relevante para você.
A pesquisa, conduzida com dados de quase 100 mil pessoas na Suécia, investigou se o uso de medicamentos GLP-1 como o Ozempic (semaglutida) e o Victoza (liraglutida) estava associado a melhora ou piora da saúde mental em quem já tinha diagnóstico de depressão ou ansiedade. Os resultados foram surpreendentes — e podem mudar a forma como pensamos o tratamento de pacientes com essas condições em conjunto.
O que motivou esse estudo?
Pessoas com diabetes têm um risco maior de desenvolver depressão e ansiedade. Estima-se que até 19% dos diabéticos tipo 2 convivam com depressão, e até 18% com algum transtorno de ansiedade. Essa relação é bidirecional: a desregulação metabólica favorece o adoecimento mental, e os transtornos psiquiátricos dificultam o controle da glicemia e a adesão ao tratamento.
Com o uso crescente de remédios para emagrecer e controlar o diabetes — como o Ozempic, o Wegovy e o Saxenda —, surgiu uma dúvida importante: esses medicamentos GLP-1 protegem ou prejudicam a saúde mental de quem já tem depressão ou ansiedade?
Até agora, os dados eram contraditórios. Alguns estudos sugeriam benefícios para o humor e o bem-estar, outros levantavam preocupações sobre possíveis efeitos colaterais psiquiátricos, incluindo risco de suicídio. A novidade desse estudo é o método utilizado para responder a essa pergunta.
Um método mais confiável: cada pessoa como seu próprio controle
A maioria dos estudos anteriores comparava pessoas que usavam GLP-1 com pessoas que não usavam. O problema é que esses dois grupos podem ser muito diferentes entre si — em gravidade da doença, em perfil psicológico, em estilo de vida — e isso pode distorcer os resultados.
Os pesquisadores suecos usaram uma abordagem chamada desenho intra-individual: em vez de comparar pessoas diferentes, eles compararam períodos em que a mesma pessoa usava o medicamento com períodos em que a mesma pessoa não usava. Isso elimina grande parte dos fatores de confusão, porque cada indivíduo funciona como seu próprio controle.
Esse tipo de análise é considerado uma das formas mais robustas de estudar efeitos de medicamentos em estudos observacionais — o mesmo método já foi usado para avaliar efeitos de estatinas e medicamentos para TDAH publicados anteriormente no *Lancet*.
Os principais resultados
A coorte incluiu 95.490 pessoas com diagnóstico de depressão, ansiedade ou ambos, que usavam algum medicamento para diabetes. O acompanhamento médio foi de 5,2 anos, e 22.480 indivíduos usaram algum GLP-1 durante o período.
O desfecho principal — chamado de "piora da doença mental" — foi definido como uma combinação de internação psiquiátrica, afastamento do trabalho por razões psiquiátricas por mais de 14 dias, internação por autolesão ou morte por suicídio.
Semaglutida (Ozempic/Wegovy): o destaque
A semaglutida, princípio ativo do Ozempic, apresentou os resultados mais expressivos entre todos os GLP-1 analisados:
Quando a semaglutida foi comparada diretamente com a empagliflozina (um medicamento da classe SGLT2, também usado para diabetes), ela manteve a vantagem, com 27% menos risco de piora da saúde mental.
Liraglutida (Victoza/Saxenda): benefício mais modesto
A liraglutida também mostrou efeito protetor, mas em menor grau:
Exenatida e dulaglutida: sem efeito
Nem a exenatida nem a dulaglutida mostraram associação com melhora ou piora dos desfechos psiquiátricos, o que sugere que o efeito não é igual para todos os GLP-1 — não se trata de um efeito de classe, mas de algo mais específico de determinados medicamentos.
Autolesão: proteção como grupo
Quando todos os GLP-1 foram analisados em conjunto, houve uma redução de 44% no risco de autolesão. Esse dado é particularmente relevante diante das preocupações regulatórias que surgiram em 2023 sobre um possível efeito colateral do Ozempic relacionado a ideação suicida — preocupações que esse estudo ajuda a contrabalançar.
O que pode explicar esse efeito do Ozempic no cérebro?
Os pesquisadores discutem algumas hipóteses biológicas para os efeitos da semaglutida na saúde mental.
O GLP-1 atua em vias cerebrais serotoninérgicas e dopaminérgicas — as mesmas envolvidas na regulação do humor, da ansiedade e do sistema de recompensa. Além disso, o hormônio GLP-1 pode reduzir a neuroinflamação, diminuindo o estresse oxidativo e a produção de citocinas inflamatórias no cérebro. Sabemos que a neuroinflamação tem papel importante na fisiopatologia da depressão.
Outra possibilidade é que a perda de peso proporcionada por remédios como o Ozempic melhore indiretamente o bem-estar, a autoestima, a mobilidade e a qualidade do sono — fatores que impactam a depressão e a ansiedade. A melhora da obesidade pode trazer ganhos na qualidade de vida e no humor que, por si só, já contribuiriam para a estabilidade psiquiátrica. No entanto, os autores destacam que o efeito da semaglutida foi superior ao de outros medicamentos que também promovem perda de peso (como a empagliflozina), sugerindo que pode haver um efeito direto no cérebro, além do benefício indireto do emagrecimento e do bem-estar físico.
Limitações importantes
Mesmo publicado no *Lancet Psychiatry* e com metodologia robusta, o estudo tem limitações que precisam ser consideradas:
O que isso significa para quem tem depressão ou ansiedade?
Esse estudo não significa que o Ozempic é um antidepressivo ou que deva ser prescrito para tratar depressão e ansiedade. Ele não substitui antidepressivos, psicoterapia ou qualquer outro tratamento psiquiátrico. Não é essa a conclusão dos autores, e não é assim que devemos ler os dados.
O que ele sugere, de forma bastante consistente, é que para pessoas que já têm depressão ou ansiedade e que também precisam de tratamento para diabetes ou obesidade, a semaglutida e a liraglutida podem ser escolhas particularmente favoráveis — porque, além de tratar a obesidade e a questão metabólica, parecem não piorar (e possivelmente proteger) a saúde mental.
Na prática clínica, isso significa que quando um paciente com depressão e diabetes chega ao consultório, a escolha do antidiabético pode (e deve) levar em conta o perfil psiquiátrico. E os dados atuais favorecem os GLP-1 — especialmente a semaglutida — nesse cenário.
Próximos passos: precisamos de ensaios clínicos
Os próprios autores do estudo concluem que esses achados justificam a realização de ensaios clínicos randomizados — o padrão-ouro da pesquisa médica — para testar diretamente se a semaglutida pode ser usada como tratamento adjuvante da depressão e da ansiedade em pessoas com diabetes.
Se esses estudos confirmarem os resultados, estaremos diante de uma possibilidade terapêutica com dupla eficácia: tratar o corpo e proteger a mente ao mesmo tempo — não como um antidepressivo em si, mas como um aliado que melhora a qualidade de vida metabólica e, de quebra, pode favorecer o humor e a estabilidade emocional. Essa é uma das fronteiras mais promissoras da psiquiatria metabólica.

Dr. Otávio de Lacquila Yano
Médico Psiquiatra
Médico psiquiatra especializado em saúde mental, com formação pela USP e experiência em depressão resistente ao tratamento, autolesão e prevenção ao suicídio. Dedica-se a desmistificar a psiquiatria e promover o bem-estar mental através da educação e cuidado personalizado.
Especialidades
⚠️ ⚠️ IMPORTANTE: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Não substitui a consulta médica individualizada.
⚠️ O Ozempic e outros medicamentos GLP-1 não são antidepressivos e não estão aprovados para tratamento de depressão ou ansiedade. Não inicie, altere ou interrompa nenhum medicamento sem orientação do seu médico.
⚠️ Se você convive com depressão ou ansiedade, procure um psiquiatra para avaliação e acompanhamento adequados.
Fontes e Referências
Taipale H, Taylor M, Lähteenvuo M, Mittendorfer-Rutz E, Tanskanen A, Tiihonen J. Association between GLP-1 receptor agonist use and worsening mental illness in people with depression and anxiety in Sweden: a national cohort study. The Lancet Psychiatry. 2026;13:327–35.
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