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    Ozempic Pode Ajudar na Depressão e Ansiedade? Estudo do Lancet Psychiatry Traz Novas Evidências

    Um estudo publicado no The Lancet Psychiatry com quase 100 mil pessoas na Suécia mostrou que a semaglutida (Ozempic) reduziu em até 44% o risco de piora da depressão em pacientes que já tinham diagnóstico de transtorno mental. Entenda o que os dados significam e o que ainda não sabemos.

    Dr. Otávio Yano
    13 min de leitura
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    Se você convive com depressão ou ansiedade e também usa medicamentos para diabetes ou obesidade, um estudo recente publicado na revista *The Lancet Psychiatry* — uma das mais importantes do mundo em psiquiatria — pode ser relevante para você.

    A pesquisa, conduzida com dados de quase 100 mil pessoas na Suécia, investigou se o uso de medicamentos GLP-1 como o Ozempic (semaglutida) e o Victoza (liraglutida) estava associado a melhora ou piora da saúde mental em quem já tinha diagnóstico de depressão ou ansiedade. Os resultados foram surpreendentes — e podem mudar a forma como pensamos o tratamento de pacientes com essas condições em conjunto.

    O que motivou esse estudo?

    Pessoas com diabetes têm um risco maior de desenvolver depressão e ansiedade. Estima-se que até 19% dos diabéticos tipo 2 convivam com depressão, e até 18% com algum transtorno de ansiedade. Essa relação é bidirecional: a desregulação metabólica favorece o adoecimento mental, e os transtornos psiquiátricos dificultam o controle da glicemia e a adesão ao tratamento.

    Com o uso crescente de remédios para emagrecer e controlar o diabetes — como o Ozempic, o Wegovy e o Saxenda —, surgiu uma dúvida importante: esses medicamentos GLP-1 protegem ou prejudicam a saúde mental de quem já tem depressão ou ansiedade?

    Até agora, os dados eram contraditórios. Alguns estudos sugeriam benefícios para o humor e o bem-estar, outros levantavam preocupações sobre possíveis efeitos colaterais psiquiátricos, incluindo risco de suicídio. A novidade desse estudo é o método utilizado para responder a essa pergunta.

    Um método mais confiável: cada pessoa como seu próprio controle

    A maioria dos estudos anteriores comparava pessoas que usavam GLP-1 com pessoas que não usavam. O problema é que esses dois grupos podem ser muito diferentes entre si — em gravidade da doença, em perfil psicológico, em estilo de vida — e isso pode distorcer os resultados.

    Os pesquisadores suecos usaram uma abordagem chamada desenho intra-individual: em vez de comparar pessoas diferentes, eles compararam períodos em que a mesma pessoa usava o medicamento com períodos em que a mesma pessoa não usava. Isso elimina grande parte dos fatores de confusão, porque cada indivíduo funciona como seu próprio controle.

    Esse tipo de análise é considerado uma das formas mais robustas de estudar efeitos de medicamentos em estudos observacionais — o mesmo método já foi usado para avaliar efeitos de estatinas e medicamentos para TDAH publicados anteriormente no *Lancet*.

    Os principais resultados

    A coorte incluiu 95.490 pessoas com diagnóstico de depressão, ansiedade ou ambos, que usavam algum medicamento para diabetes. O acompanhamento médio foi de 5,2 anos, e 22.480 indivíduos usaram algum GLP-1 durante o período.

    O desfecho principal — chamado de "piora da doença mental" — foi definido como uma combinação de internação psiquiátrica, afastamento do trabalho por razões psiquiátricas por mais de 14 dias, internação por autolesão ou morte por suicídio.

    Semaglutida (Ozempic/Wegovy): o destaque

    A semaglutida, princípio ativo do Ozempic, apresentou os resultados mais expressivos entre todos os GLP-1 analisados:

  1. 42% menor risco de piora da doença mental em geral
  2. 44% menor risco de piora da depressão
  3. 38% menor risco de piora da ansiedade
  4. 47% menor risco de piora de transtorno por uso de substâncias
  5. 45% menor risco de afastamento do trabalho por motivos psiquiátricos
  6. Quando a semaglutida foi comparada diretamente com a empagliflozina (um medicamento da classe SGLT2, também usado para diabetes), ela manteve a vantagem, com 27% menos risco de piora da saúde mental.

    Liraglutida (Victoza/Saxenda): benefício mais modesto

    A liraglutida também mostrou efeito protetor, mas em menor grau:

  7. 18% menor risco de piora da doença mental
  8. 26% menor risco de piora da depressão
  9. Sem efeito significativo sobre a ansiedade isoladamente
  10. Exenatida e dulaglutida: sem efeito

    Nem a exenatida nem a dulaglutida mostraram associação com melhora ou piora dos desfechos psiquiátricos, o que sugere que o efeito não é igual para todos os GLP-1 — não se trata de um efeito de classe, mas de algo mais específico de determinados medicamentos.

    Autolesão: proteção como grupo

    Quando todos os GLP-1 foram analisados em conjunto, houve uma redução de 44% no risco de autolesão. Esse dado é particularmente relevante diante das preocupações regulatórias que surgiram em 2023 sobre um possível efeito colateral do Ozempic relacionado a ideação suicida — preocupações que esse estudo ajuda a contrabalançar.

    O que pode explicar esse efeito do Ozempic no cérebro?

    Os pesquisadores discutem algumas hipóteses biológicas para os efeitos da semaglutida na saúde mental.

    O GLP-1 atua em vias cerebrais serotoninérgicas e dopaminérgicas — as mesmas envolvidas na regulação do humor, da ansiedade e do sistema de recompensa. Além disso, o hormônio GLP-1 pode reduzir a neuroinflamação, diminuindo o estresse oxidativo e a produção de citocinas inflamatórias no cérebro. Sabemos que a neuroinflamação tem papel importante na fisiopatologia da depressão.

    Outra possibilidade é que a perda de peso proporcionada por remédios como o Ozempic melhore indiretamente o bem-estar, a autoestima, a mobilidade e a qualidade do sono — fatores que impactam a depressão e a ansiedade. A melhora da obesidade pode trazer ganhos na qualidade de vida e no humor que, por si só, já contribuiriam para a estabilidade psiquiátrica. No entanto, os autores destacam que o efeito da semaglutida foi superior ao de outros medicamentos que também promovem perda de peso (como a empagliflozina), sugerindo que pode haver um efeito direto no cérebro, além do benefício indireto do emagrecimento e do bem-estar físico.

    Limitações importantes

    Mesmo publicado no *Lancet Psychiatry* e com metodologia robusta, o estudo tem limitações que precisam ser consideradas:

  11. É um estudo observacional — não pode provar causalidade, apenas associação.
  12. Os dados são de registros médicos suecos, um sistema de saúde público e universal, o que pode limitar a generalização para outros contextos.
  13. Não havia dados individuais sobre peso, IMC ou HbA1c, o que impede analisar se o benefício está diretamente ligado à perda de peso.
  14. O poder estatístico foi limitado para exenatida e dulaglutida, então a ausência de efeito desses medicamentos precisa ser interpretada com cautela.
  15. O estudo cobriu o período da pandemia de COVID-19, que pode ter influenciado alguns desfechos.
  16. O que isso significa para quem tem depressão ou ansiedade?

    Esse estudo não significa que o Ozempic é um antidepressivo ou que deva ser prescrito para tratar depressão e ansiedade. Ele não substitui antidepressivos, psicoterapia ou qualquer outro tratamento psiquiátrico. Não é essa a conclusão dos autores, e não é assim que devemos ler os dados.

    O que ele sugere, de forma bastante consistente, é que para pessoas que já têm depressão ou ansiedade e que também precisam de tratamento para diabetes ou obesidade, a semaglutida e a liraglutida podem ser escolhas particularmente favoráveis — porque, além de tratar a obesidade e a questão metabólica, parecem não piorar (e possivelmente proteger) a saúde mental.

    Na prática clínica, isso significa que quando um paciente com depressão e diabetes chega ao consultório, a escolha do antidiabético pode (e deve) levar em conta o perfil psiquiátrico. E os dados atuais favorecem os GLP-1 — especialmente a semaglutida — nesse cenário.

    Próximos passos: precisamos de ensaios clínicos

    Os próprios autores do estudo concluem que esses achados justificam a realização de ensaios clínicos randomizados — o padrão-ouro da pesquisa médica — para testar diretamente se a semaglutida pode ser usada como tratamento adjuvante da depressão e da ansiedade em pessoas com diabetes.

    Se esses estudos confirmarem os resultados, estaremos diante de uma possibilidade terapêutica com dupla eficácia: tratar o corpo e proteger a mente ao mesmo tempo — não como um antidepressivo em si, mas como um aliado que melhora a qualidade de vida metabólica e, de quebra, pode favorecer o humor e a estabilidade emocional. Essa é uma das fronteiras mais promissoras da psiquiatria metabólica.

    Dr. Otávio de Lacquila Yano

    Dr. Otávio de Lacquila Yano

    Médico Psiquiatra

    CRM 210.269
    RQE 136.372
    Especialista em Psiquiatria

    Médico psiquiatra especializado em saúde mental, com formação pela USP e experiência em depressão resistente ao tratamento, autolesão e prevenção ao suicídio. Dedica-se a desmistificar a psiquiatria e promover o bem-estar mental através da educação e cuidado personalizado.

    Especialidades

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    Depressão Resistente ao Tratamento
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    Revisão médica: 11 de abril de 2026

    ⚠️ ⚠️ IMPORTANTE: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Não substitui a consulta médica individualizada.

    ⚠️ O Ozempic e outros medicamentos GLP-1 não são antidepressivos e não estão aprovados para tratamento de depressão ou ansiedade. Não inicie, altere ou interrompa nenhum medicamento sem orientação do seu médico.

    ⚠️ Se você convive com depressão ou ansiedade, procure um psiquiatra para avaliação e acompanhamento adequados.

    Fontes e Referências

    Taipale H, Taylor M, Lähteenvuo M, Mittendorfer-Rutz E, Tanskanen A, Tiihonen J. Association between GLP-1 receptor agonist use and worsening mental illness in people with depression and anxiety in Sweden: a national cohort study. The Lancet Psychiatry. 2026;13:327–35.

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